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alinhavos: entre lugares, afetos e filmes de família no cinema alagoano

Escrito por Laryssa Andrade

1.

O ponto de partida para este texto nasceu de um sentimento despertado pelas muitas vivências que acumulei desde 2019, ano em que me aproximei do cinema produzido em Alagoas. Lembro de atravessar Maceió, da parte alta à baixa da cidade, para participar de rodas de conversa e encontros que me colocavam diante de narrativas audiovisuais. Algumas delas encheram meus olhos: vi documentários sobre lugares, saberes populares, e lembranças comunitárias — entre eles, 'Geração Z Rural' (dir. Mel Vasconcelos, 2014), 'Guerreiros' (dir. Arilene de Castro, 2014) e 'Cidade Líquida' (dir. Laís Santos Araújo, 2015).

Talvez esses filmes me fixaram porque a memória familiar sempre foi, para mim, um território de observação, entre afetos, mas também vazios. Em cada narrativa, havia algo que ecoava na minha própria história, como se as imagens revelassem não apenas a vida de outras pessoas, mas também algo da minha. Esses filmes me devolveram histórias contadas por gente e, mais do que isso, me aproximaram da escuta aliada à imagem. Gente, gesto, vídeo. Vida.

Foi nesses ciclos que compreendi o cinema como uma fonte preciosa e um instrumento de investigação, capaz de fazer nascer outras linguagens. Senti que falar sobre cinema me levava à fotografia, que me conduzia às colagens, que, por sua vez, me guiavam à escrita. É desse fluxo que estas palavras foram se moldando desde então.

Tudo o que escrevo a partir daqui nasce dessas observações: um olhar para o cinema local, especialmente para aquele que, de alguma forma, traz a família como presença — seja como tema central, seja como ponto de partida.

Pessoa segura uma fotografia antiga sobre um caixote com fitas de vídeo e papéis, durante pesquisa sobre filmes de família no Loteamento Nuporanga, em Maceió, maio de 2025.
Fotografia realizada durante as pesquisas para este texto, no Aeroclube, bairro de Maceió (2025).

2.

Thais Blank (2015) observa que, a partir do final da década de 1980, os documentários começaram a se popularizar com múltiplos interesses e formas de narrar. Nesse mesmo período, o cinema amador ganhava espaço no debate acadêmico, sobretudo com Roger Odin, que em Le film de famille: usage privé, usage public (1995) propôs ler a imagem de família como fenômeno íntimo e também social. À época, ele destacava que esse tipo de linguagem cinematográfica ainda recebia pouca atenção crítica — o que hoje soa curioso, já que vemos tantas iniciativas voltadas justamente a esse registro “íntimo” atravessado pelo parentesco.

Segundo Odin (2003), filmes de família são “aqueles realizados por um membro de uma família sobre personagens ou acontecimentos ligados à história dessa família e para o uso privilegiado de seus membros”. A partir disso é importante perceber que os registros domésticos não se encerram no gesto privado: escapam, transbordam, revelam modos de viver e tornam-se fundamentais na salvaguarda de costumes, territórios, tempos e comunidades.

Lembro bem quando essa percepção se tornou mais concreta para mim. Em 2023, 'O lugar que somos' (2021) foi exibido nas Jornadas de Antropologia John Monteiro (UNICAMP). Durante o debate, alguém apontou algo que eu ainda não havia notado: nas falas das minhas tias, emergia um processo migratório interno em Alagoas, sobretudo no fim da década de 1970. Muitas famílias deixaram suas cidades de origem para recomeçar na capital. Outras permaneceram. E esse movimento atravessava não só a vida doméstica, mas também os trabalhos artesanais femininos que meu filme procurava acompanhar. Foi um instante de revelação: percebi que o documentário tinha trazido à tona mais do que eu imaginava. Ele me devolveu perguntas que continuam me acompanhando.

No Brasil, esse debate não é isolado. A CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto – há anos dedica espaço a arquivos pessoais e comunitários. Em 2022, a sessão Curtas na Praça levou essas imagens para a rua, reunindo obras como ‘O lugar que somos’, que entrelaça memória coletiva, família e território. Em Alagoas, experiências semelhantes vêm emergindo. O Punho Cineclube, por exemplo, exibiu em 2023 o mesmo filme em diálogo com ‘Feirinha’ (dir. Maysa Reis, 2019) e 'Parteiras' (dir. Arilene de Castro, 2018). Obras que inscrevem a memória coletiva no cinema e ampliam a noção de que registros sobre pessoas e lugares não dizem respeito apenas à intimidade.

Na antropologia visual, esses filmes etnográficos de família seguem às definições de Odin (2003), sendo todos os registros nascidos no espaço doméstico, feitos geralmente por quem o habita. Nesse sentido, não se tratam apenas de filmagens caseiras, mas trazem à tona os álbuns de fotografia e outras memórias evocadas por ausências, silêncios e apagamentos. São as imagens que ativam afetos e revelam estruturas sociais e simbólicas. Desse ponto surgem as perguntas como: o que escolhemos preservar? O que deixamos de fora? Quem tem o direito de contar uma história? Questões que atravessam tanto a prática antropológica quanto a artística, talvez porque filmar ou arquivar nunca seja banalidade, mas sempre escolha política e poética.

Nas minhas vivências, esse gesto de guardar também sempre esteve presente. Minha mãe organizava os álbuns da família em fases, já que não tínhamos filmadora, apenas câmeras pequenas. Em sua caligrafia vermelha, escrevia meses e anos a partir de 1996. Não lembro do clique da câmera, mas lembro das imagens: minhas primas, eu sozinha, os cômodos, varandas e quintais. Esses álbuns foram, de certa forma, meu primeiro “filme”: um cinema íntimo, feito de papéis, mas já capaz de me mostrar que arquivos são fragmentos da vida ordinária transformados em memória, reflexão e criação.

3.

O tempo atuando com a imagem me faz pensar os filmes dentro dos gestos coletivos de elaboração de memória. Lembro das rodas de conversa conduzidas por Larissa Lisboa, idealizadora do Alagoar — importante janela para o cinema alagoano —, lá na unidade do SESC/Poço, em 2019. Outros espaços também foram decisivos nesse percurso: a Mostra Sururu de Cinema Alagoano, o GIF (Grupo de Estudos em Imagens e Feminismos), o Punho Coletivo, o Centro Cultural Arte Pajuçara, e, não menos importante, a escrita do meu primeiro documentário, ‘O lugar que somos’, em 2021.

Na Sururu de 2020, dois filmes me atravessaram de maneira especial: 'À espera de um milagre: relatos de sonhos perdidos de frente para a lagoa' (2019), de Géssika Costa e Vitor Beltrão, e 'Bem no fundo das retinas' (2020), de Mik Moreira. Géssika e Vitor olharam para promessas de lares aos moradores do entorno na Lagoa Mundaú. Mik, registrou o avô. Ver, lembrar, associar, criar, difundir. Assistir a eles foi como espiar por uma fresta e enxergar um campo vivo, um lugar onde imagens puxam outras imagens, e personagens continuam conosco mesmo depois da projeção.

Durante os últimos anos outros filmes foram se tornando referência no que diz respeito à essa lembrança da morada, da narrativa de algum espaço que abrigou memórias. Essa rota desenhou o desejo de criar uma iniciativa de registro, inspirada no que esse cinema, o nosso, deixa. É nesse ponto que os estudos das imagens domésticas se aproximam do que tento elaborar em Alinhavos: as imagens não são apenas registros, mas formas de performar memória e presença. Elas são o que vivemos e partilhamos, indicam o intervalo entre o vivido e o compartilhado.

4.

Parto de uma pergunta que me acompanha: como o cinema alagoano tem narrado memórias coletivas e/ou domésticas por meio de documentários?

Esse pensamento me traz a um número crescente de obras que voltam o olhar para as casas, os rostos, os gestos cotidianos. Filmes como 'Rua das Árvores' (dir. Alice Jardim, 2013), 'Retina' (dir. Paulo Silver, 2015), 'O branco da raiz' (dir. Anderson Barbosa, 2019), 'Bem no fundo das retinas' (dir. Mik Moreira, 2020), ‘Cajá dos Negros’ (dir. Israel Oliveira, 2020), 'Bênção' (dir. Maysa Reis, 2024), 'Projeto de doutorado n.1' (dir. Roseane Monteiro, 2023), entre outros, operam esse caminho do narrar.

À época da escrita de 'O lugar que somos', senti um desejo que ultrapassava o registro “fixo” da fotografia. Eu queria movimento. Queria ouvir o tempo, atravessá-lo, guardar vozes, relatos, lugares. Foi o cinema que me abriu essa possibilidade, esse modo de fazer que alcança o que está fora do quadro e toca um tempo que eu mesma não vivi, mas que esteve lá. Lembro das falas de minhas tias, dizendo coisas como: “eu aprendi a costurar com a minha mãe”. Essa marcação da pessoa, do rosto, do ensinamento... isso ficou em mim.

Pessoa segura uma fotografia antiga sobre um caixote com fitas de vídeo e papéis, durante pesquisa sobre filmes de família no Loteamento Nuporanga, em Maceió, maio de 2025.
Registro do documentário 'O lugar que somos' (autoral, 2021).

Como afirmam Santos e Musse (2014), a vontade de registrar nasce do desejo de dar espessura ao tempo, se tornando arquivos de subjetividades.

Enquanto eu via e revia essas obras locais que citei, algo dentro de mim também se movia. Não era só o olhar de quem pesquisa, mas de quem se reconhece junto. Senti que essas narrativas me ajudavam a pensar a minha própria história, os afetos da minha família, os silêncios e ausências que também herdei. Foi nesse encontro entre memória coletiva e experiência íntima que nasceu o desejo de construir um documentário, em família. Criar 'O lugar que somos' colocou diante da gente uma história nossa, com detalhes nossos, muitos deles que nem sabíamos existir.

5.

Na ordem, foi o cinema que me levou à antropologia. Mas foi a antropologia que me permitiu entender que filmes de família e memória coletiva não são categorias isoladas, mas dimensões entrelaçadas de uma mesma experiência.

Os álbuns que minha mãe organizou com tanto cuidado, e os filmes que conheci nas sessões da Mostra Sururu, ecoam as palavras de Clarice Peixoto e Patrícia Monte-Mór (2003):

o filme caseiro nunca é só registro — ele é ato de inscrição no mundo, uma tecnologia do afeto.

Esses arquivos domésticos operam como espelhos e janelas: refletem micro-histórias, mas também revelam processos maiores, como o sertão que migra e ritos que ameaçam desaparecer.

6.

Posso dizer que os filmes domésticos me mostraram três gestos fundamentais: seleção (o que merece ser lembrado?), edição (como articular os tempos?), reinscrição (para quem e por quê?).

'O branco da raiz' (2019) mistura depoimentos familiares sobre a farinha artesanal à memória do cultivo como forma de pertencimento e ancestralidade. Em 'Bênção' (2024) vemos que o sentimento sobre avós é um registro tão nosso quanto o dela. Os gestos pequenos, como cortar o cabelo ou escrever uma carta sobre o passado, iluminam lugares pessoais e coletivos. 'Rua das Árvores' (2013) pensa a rua como território de afetos e perdas, algo como um álbum urbano que revela como também as cidades guardam memórias. 'Projeto de doutorado n.1' (2023), retoma a proposta no sentido de escrever sobre si em que imagem e palavra se tensionam e nos lembram que contar a si mesma também é narrar o outro.

7.

Quando cineastas como Maysa, Mik ou Alice voltam suas câmeras para famílias, não apenas documentam, vão além e me atingem também.

Cada filme que me encontra, moldura um novo pedaço dessa rede: são retratos, sim, mas também são perguntas que se respondem. Mais do que classificar obras como "filmes de família", o que já fazemos é sobre entender como elas refletem o outro; como organizam os espaços da escuta e do pertencimento.

8.

Talvez seja por isso que o gesto da costura se tornou tão presente ao pensar no projeto Alinhavos. Costurar é atenção. Um alinhavo não é veloz, nem “limpo”. Ele marca a peça que queremos costurar e requer tato, cuidado com margens, paciência com linhas que se embolam, que não seguem o plano original. Pensar nos filmes de família é assim também: exige alinhamento para lidar com o que será reescrito. É nesse intervalo entre comum e singular que vejo a nossa cine-antropologia alagoana.

Esse fazer é uma prática que reconhece a escolha de filmar a casa, o quintal, a avó, a vizinha, os arquivos que cabem numa caixa de sapato. Uma política sobre memórias que precisa seguir sendo incentivada com políticas públicas, espaços de acolhimento e olhares que compreendam esses filmes como caminhos possíveis.

9.

Ao reunir registros, narrativas e visualidades que falam sobre família no cinema alagoano, procuro expandir o repertório da memória audiovisual do estado, ao mesmo tempo em que cultivo os modos singulares de contar a vida. Não se trata de organizar uma história única, mas de acompanhar as muitas formas de lembrar, de abrir espaços para que as imagens sigam circulando entre pessoas, lugares e afetos. E aí entram os (tantos) caminhos que o Alinhavos me ajudou a perceber. O cinema convoca outros caminhos. Partir dos filmes me levam às fotos, que me levam às colagens e aos textos.

10.

É nesse lar que nasce o projeto Alinhavos: de um encantamento inicial a partir do espanto diante de imagens domésticas e arquivos familiares atravessando o tempo, o projeto se construiu como uma plataforma de investigação e partilha. Aqui, interessa deslocar imagens, interrogar suas margens, seus modos de circulação e seus silêncios. Assumir o arquivo não como peça estática, mas como matéria viva, manipulável, de tantas formas nas artes visuais.

Por isso, não deixo uma conclusão fechada, mas um ponto de costura que indica continuidade, um alinhavo. O arquivo doméstico, ao migrar de seus contextos originais, pode participar de outras histórias: mais coletivas, contraditórias, abertas. Como o linho, ele é forte quando está em movimento.

referências

ALAGOAR. Alagoar. Disponível em: https://alagoar.com.br.

ANDRADE, Laryssa. O lugar que somos. Alagoas, 2021. Documentário. Disponível em: https://youtu.be/aw6xrbgpwII.

BARBOSA, Anderson. O branco da raiz. Alagoas, 2019. Documentário.

COSTA, Géssika; BELTRÃO, Vitor. À espera de um milagre: relatos de sonhos perdidos de frente para a lagoa. Alagoas, 2019. Documentário.

MOREIRA, Mik. Bem no fundo das retinas. Alagoas, 2020. Documentário.

JARDIM, Alice. Rua das árvores. Alagoas, 2013. Documentário.

LINS, C.; BLANK, T. (2012). Filmes de família, cinema amador e a memória do mundo. Significação: Revista De Cultura Audiovisual, 39(37), 52-74.

MONTEIRO, Roseane. Projeto de doutorado n.1. Alagoas, 2023. Documentário.

OLIVEIRA, Israel. Cajá dos Negros. Alagoas, 2019. Documentário.

PEIXOTO, Clarice Ehlers; MONTE-MÓR, Patrícia. Apresentação. Cadernos de Antropologia e Imagem, Rio de Janeiro, v. 17, n. 2, p. 151–153, 2003.

REIS, Maysa. Bênção. Alagoas, 2024. Documentário.

SANTOS, A. C. C. dos; MUSSE, C. F. Filmes de família: a intimidade representada. Lumina, [S. l.], v. 10, n. 2, 2016. DOI: 10.34019/1981-4070.2016.v10.21206. Acesso em: 29 mai. 2025.

TOMAIM, C. dos S. (2016). O documentário como “mídia de memória”: afeto, símbolo e trauma como estabilizadores da recordação. Significação: Revista De Cultura Audiovisual, 43(45), 96-114.

ODIN, Roger. As produções familiares de cinema e vídeo na era do vídeo e da televisão. Tradução de Ana Carneiro Cerqueira. Revisão técnica de Clarice Ehlers Peixoto. Cadernos de Antropologia e Imagem, Rio de Janeiro, v. 17, n. 2, p. 159–172, 2003.